Passei horas escolhendo o tecido. Explicava, explicava e o vendedor não entendia. Tão claro pra mim, tão nítido, tão óbvio e ele só mostrava os velhos modelos de sempre. Não adianta, moço. Você já desceu uma pilha, mas nenhum deles é o meu. Sim, porque o meu era fino sem ser delicado, resistente sem ser encorpado, azul sem ser clichê. Tudo bem, tá? Levo este. Depois de alguns ajustes, há de ficar bom. Fui correndo pra casa. Pude sentir de longe o cheiro bom do tempero da Lurdes e percebi que o almoço já estava servido. Mas hoje não. Hoje minha fome tinha outro nome. Atravessei o corredor, subi as escadas, abri a porta do quarto e a encontrei calma, quieta e acolhedora. Era tudo que eu precisava naquele momento, minha poltrona de vó. Sentei munida de tecido, tesoura, linha e agulha e comecei a soletrar baixinho. Por que tinha que vir cinza no kit? Cor meio termo não serve. Se quero materializar o que existe aqui dentro, preciso de intensidade. Peguei o vermelho e alinhavei afeto. Estiquei o braço até alcançar o carinho, que não para de crescer e vai exigir bastante espaço. Grudei com alfinete. Desenhei asas pra você conseguir voar, fiz chão para você voltar.
Uni zelo e firmeza com ponto invisível. Apliquei acordes de uma linda canção, você vai conseguir ouvir. Ri, chorei, costurei cada letra do meu sentimento. Deixei a imaginação colorir. Fiquei muito tempo assim, tecendo emoções e entrelaçando sonhos, até que enfim cortei as sobras de tecido e admirei minha obra. Finalmente havia um cobertor em minhas mãos. Pronto. Agora já posso cobrir você de amor.
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