Querido Antonio,

Antes de você nascer eu e seu pai tivemos longas conversas e pensamos muito se valeria mesmo a pena colocar mais uma criança nesse mundo onde senhores de 80 anos com hipertensão e falta de ar são deixados do lado de fora de um hospital que deveria atendê-los com respeito e dignidade. Um mundo onde professores, sim filho aqueles que tanto nos ensinam, são agredidos pela tropa de choque da polícia quando só tentavam garantir um direito básico da profissão. Um mundo onde juízes que cumprem seus deveres são exterminados na porta de casa. Onde pessoas morrem por serem negras. Por serem homossexuais. Por serem nordestinas. Por serem religiosas. Por terem uma religião diferente.
“Ai meu Deus, não vale a pena”. Sim filho, chegamos várias vezes a essa conclusão. Mas eis que certo dia lembramos que este também é o mundo da flor. Flor que tem nome de Maria e, com um salário mínimo por mês, adotou 23 crianças. Este também é o mundo do arco-íris. Um arco-íris chamado João, que larga o calor do seu cobertor e encara o frio das ruas para distribuir sopa quente pra quem não tem nada além da fome. Este também é o mundo do mar. Mar conhecido como José, que não se amedronta pelo poder e exerce sua profissão com verdade, doa a quem doer. Este também é o mundo da andorinha. Andorinha Lurdes, que acorda às quatro da manhã e pega três conduções lotadas para ensinar uma turma de alunos numa escola onde falta giz.
É filho, foram longos papos, muitas dúvidas e anos de reflexão, mas nossa certeza chegou. Hoje você está aqui e cada sorriso seu nos inunda de esperança. Todo nosso esforço daqui pra frente será para que você trilhe um caminho bonito, pra si mesmo e para os outros.
Tomara que esse mundo cuide bem de você.
Tomara que você cuide bem desse mundo.

Do seu lado sempre,
Mamãe e papai

Papai

Minha mãe disse que você é um cara ocupado. Deve ser verdade porque ela não costuma mentir, mas o que eu sei e o que importa é que você está sempre comigo. Nas manhãs quando acordo e fico feliz ao ver seu rosto, nas noites em que me coloca pra dormir ouvindo rock, nos banhos de chuveiro que tomamos abraçados, nos jogos de futebol que assistimos torcendo juntos, nas madrugadas quando, mesmo tendo que trabalhar no dia seguinte, você ajuda minha mãe a cuidar de mim.
Eu ainda sou pequeno e não sei muita coisa da vida, mas já aprendi o que é ter o amor de um pai. Um amigo. Meu primeiro amigo. E sei isso graças a você, sua dedicação e sua vontade de ser sempre presente. Não fica triste quando perder alguma estripulia minha, tá? Prometo repetir tudo quando você estiver em casa. Ah, e você estava certo com relação às bananas. Pede pra mamãe trocar a fruta da minha papinha?

Feliz dia dos pais!!!

Eu amo você. Mais do que chupar pezinho.
Antonio

Pedido

Posso improvisar um apelo em praça pública
Mendigar ensaiando um drama de vida
Mas por favor
Se não me quer bem, não usa querida

Posso oferecer recompensa
Encomendar pra presente
Mas por favor
Não gasta palavras pra dizer o que não sente

Posso desejar com toda força
Reclamar com firmeza
Mas por favor
Não chama de lindo se não vê beleza

Aconteceu que hoje precisei usar “amor”
E qual não foi meu espanto
De tanto ser jogada ao vento
Perdeu parte do encanto

Passei horas escolhendo o tecido. Explicava, explicava e o vendedor não entendia. Tão claro pra mim, tão nítido, tão óbvio e ele só mostrava os velhos modelos de sempre. Não adianta, moço. Você já desceu uma pilha, mas nenhum deles é o meu. Sim, porque o meu era fino sem ser delicado, resistente sem ser encorpado, azul sem ser clichê. Tudo bem, tá? Levo este. Depois de alguns ajustes, há de ficar bom. Fui correndo pra casa. Pude sentir de longe o cheiro bom do tempero da Lurdes e percebi que o almoço já estava servido. Mas hoje não. Hoje minha fome tinha outro nome. Atravessei o corredor, subi as escadas, abri a porta do quarto e a encontrei calma, quieta e acolhedora. Era tudo que eu precisava naquele momento, minha poltrona de vó. Sentei munida de tecido, tesoura, linha e agulha e comecei a soletrar baixinho. Por que tinha que vir cinza no kit? Cor meio termo não serve. Se quero materializar o que existe aqui dentro, preciso de intensidade. Peguei o vermelho e alinhavei afeto. Estiquei o braço até alcançar o carinho, que não para de crescer e vai exigir bastante espaço. Grudei com alfinete. Desenhei asas pra você conseguir voar, fiz chão para você voltar.
Uni zelo e firmeza com ponto invisível. Apliquei acordes de uma linda canção, você vai conseguir ouvir. Ri, chorei, costurei cada letra do meu sentimento. Deixei a imaginação colorir. Fiquei muito tempo assim, tecendo emoções e entrelaçando sonhos, até que enfim cortei as sobras de tecido e admirei minha obra. Finalmente havia um cobertor em minhas mãos. Pronto. Agora já posso cobrir você de amor.

Revelação

Se realidade vira fantasia diante do clique,

Escondo minha lente para enxergar sua verdade

Dizendo xis, fotografo maquiagem

Silenciosa, capturo essência

Aniversário

Acorda, amor

Deixa a preguiça na cama

O relógio na gaveta

Vem dizer que me ama

Acorda, amor

Lá fora faz um dia lindo

O café já tá na mesa

Ele despertou sorrindo

Acorda, amor

Encomendei o dia inteiro, não só metade

Pede pro tempo ter calma

Vem matar minha saudade

Acorda, amor

Mais tarde tomamos um vinho

Aluguei o mesmo filme

Vem me fazer um carinho

Acorda, amor

Onze anos não cabem em um dia

Preciso dizer que te amo

Que meu peito é só alegria

Acorda, amor

Eu, tu, ele

Querido Antonio,

Estou escrevendo para contar como estão sendo nossos primeiros dias juntos. Não quero esconder nada, por isso você precisa saber que minhas noites escuras viraram horas em claro e as costas doem como aquelas que carregam o peso da idade. Sonhos confundem realidade e fantasia e eu acordo sobressaltada, procurando você no meu colo. O choro forte lembra que é hora de levantar, mas as pernas desobedecem, os olhos desobedecem, o corpo todo desobedece. A cicatriz ainda dói, então ele me ajuda a levantar. Muitas vezes acho que a fraqueza vai prevalecer e as lágrimas aparecem junto com o medo de fracassar, mas enfrento e sigo em frente. Um passo desengonçado de cada vez.  É justamente nessa hora, quando lhe tenho em meus braços, que dor, angústia e cansaço finalmente se despedem. Se você ensaia um sorriso então, o mundo inteiro se transforma em felicidade. Sim, tão piegas quanto àqueles comerciais de margarina, com a familia contente em volta da mesa. Quando lhe coloco em meu peito, meu corpo todo se enche de um amor inexplicável, lindo e inesgotável e quando seu olhar cruza o meu, olho para cima e pergunto a Deus o que fiz para merecer tanta alegria.

Dizem que quando nasce um bebê, nasce junto uma mãe. Se é assim, preciso me perdoar. Ninguém nasce perfeito. Eu tenho aprendido um pouquinho a cada minuto e sei que vou me sair bem. Porque ter você aqui é o milagre, o resto é só coisa pequena. Façamos o seguinte, guardemos bem esta data: 10 de fevereiro. Nasceu você, nasci eu, nasceu também um lindo pai, que abandona o sono na cama e atrasa o relógio para brincar com o filho por mais alguns minutos. Seguiremos firmes os três, caminharemos juntos. Como diz a sua madrinha, sempre de mãos dadas.

Com todo amor que cabe em mim,

Mamãe

De mamãe para Antonio

Você me faz lembrar do dia em que ele olhou pra mim pela primeira vez. Da forma como chamou meu nome, desviando o rosto quando eu olhava. Da afinidade imediata revelada numa boa conversa. Das atitudes bonitas que tomou para me conquistar. Da carta de despedida com o buquê de rosas amarelas que quase acabaram comigo (é bom você aprender desde cedo, as mulheres não são fáceis). Da primeira vez que saímos juntos, ele lá embaixo me observando no elevador. Da saudade que eu sentia quando me deixava na porta de casa, mesmo sabendo que a distância só ia durar até o dia seguinte. Das palavras e expressões que inventamos, na tentativa de criar um mundo que fosse só nosso. Dos sonhos que temos todos os dias. De como nos entendemos com olhares. De quando eu esqueço que ele é grande e quero colocar no colo e cuidar. De como ele cuida de mim mesmo quando acho que não preciso.

Obrigada por me fazer lembrar de coisas tão lindas. Obrigada por ser a nossa soma, nosso fruto, nosso bebeinho. Obrigada por me fazer, a cada movimento seu aqui dentro, querer o sorriso dele ainda mais perto. Obrigada por despertar o que há de melhor em nós.

Seja bem-vindo, filho. Estamos prontos. Estamos aqui esperando.

PS. Preparamos o seu quarto com nuvem, pipa colorida, luz azul e passarinho. Talvez a gente consiga voar.

Nosso beija-flor

Observando seu olhar de tristeza eu quis dizer: vai sarar, não chore

Mas também havia água em meus olhos

Sendo ele um pássaro, precisava bater asas

Sendo nós flores, estávamos beijados

Enxuguem essas lágrimas, disse o desconhecido

Só assim enxergarão o brilho que ficou

Hoje deu pra ver

Levou um pouco de nós, deixou um broto de amor

Obrigada, anjo. Voe alto lá fora, ele voa alto aqui dentro

Amigos

Eu sempre peço permissão para entrar no mar. Aprendi com o surfista, sinal de respeito. Você não entra na casa de ninguém sem bater na porta, não invade a vida de uma pessoa sem ela ter deixado (ou não deveria). Porque seria diferente com ele? Meu pai diz que o mar é o lugar onde ficamos mais próximos de Deus. Sendo assim, meu templo. Ontem ele era o mesmo que eu já conhecia, mas se mostrou diferente. Depois de anos tentando estabelecer uma relação de confiança, finalmente falou ao meu ouvido. Não escutei novidade, mas foi bonito demais vê-lo em cada onda. Sentei na areia e deixei molhar os pés, era meu jeito de dar colo. Mergulhei nas palavras, me deixei embalar pelo som. Agora somos amigos e, mesmo distantes, estaremos juntos. Amanhã o trem chega e me leva embora, mas meu coração fica mais cinco minutos. Naquele dia marcado, vou voltar para outra conversa. Preciso lavar corpo e alma com seu sal, renovar as forças e deixar pra trás o que não for bom. Vou deitar em suas águas, beijar a sua espuma e nadar nos seus cabelos. Assim, tenho certeza que seremos, mais uma vez, abraço.